sonambulices
Príncepes bárbaros
fazem barulhos
ensurdecedores
no silêncio do arrebol.
Ouvem-se os gritos
para além mar
do meu quintal.
trocando em miúdos
Calculando por baixo:
foram uns 129 quilos de silêncio
e dúzia e meia de palavrão
que me fizeram passar
o resto da vida com você.
Muito pouco esse negócio de vida toda, né não?
relação objetal
Desejo
deserto
cisão
incesto.
Tesão
objeto
imoral
incerto.
Pulsão
mulher
falo
convexo.
em todas as faltas do mundo,
falta côncavo e nexo.
poema do bôbo
Larga mão de ser carrancudo, zoreia!
Dá cá um abraço
– desses pulantes –
sacode a bobeira
e a poeira da estante!
e corre pra mim
mais rápido que minha dor…
Eita moço inquietado
– frosô, abobado –
que sempre se enrosca
no mesmo lanhado!
da espera
Quando enfim chegar a hora
da sua chegada
Que se convertam os fins
em todos os começos.
E que momentos poucos
tampouco pequenos
Sejam fragmentos eternos
roubados do tempo.
evasão
Despiram- se
de vergonhas.
Abriam mão
de benevolências
e se deram um ao outro
Rasgaram-se de lascivo amor intenso
de visceral,
de entranhas,
perderam o senso,
o tempo,
o peso.
E foi assim em todos os cantos
cântaros
cantos
uivos e impropérios.
Em troca de suas águas,
se davam em bicas.
Pediram trégua,
negaram arrego.
Trôpegos,
cambalearam
em todos os ângulos e trapézios do mundo.
Continuaram.
O desafio
de pernas e corda bamba.
Amaram-se tanto quanto não se sabe.
Tanto que não se ouve;
tanto, tanto que nem se fala.
Os frêmitos, os gritos
O gozo em evasão da verve.
Não lhes restou força para segurar o ser.
Esvaíram-se
e
entregues
estão
à alma
um ao outro.
parasita
Pudesse negaria a alma
arrancaria a roupa
despiria a pele.
Pudesse negaria o ser
o ter
o partir.
Pudesse viveria em ti,
parasita de afeto,
alimentado três vezes ao dia
em seu sentir.
sopro
Toda dor é um desejo
de ser assoprado com gracejo
pelo bom vento do ser amado.
Assim sendo,
mesmo morrendo,
toda dor de amor é um pouco boa.
imediato
Então, tudo é derrepente:
eu, derrapada
você, freada brusca.
Inerente ao acaso
espero uma nova tragédia que nos aproxime.
querência
eu quero pouco.
quero quase nada,
por sinal.
tavez meu tudo
seja um nada-fragmentado
daquele réles inteiro
que insiste
em me negar.
poemeco dominical
Pela manhã Tennessee Williams,
fim de tarde
a santa missa,
e de noite uma oração:
“Obrigado, Santo Deus
Por me mostrar
Que todos no altar
Eram Blanche DuBois.
Amém
tarde morna de vento azul
Ande hoje na ponta dos pés
feche seus olhos
segure em meu ombro
e me deixe lhe dar um sonho.
Ande hoje na ponta dos pés
e me dê sorrisos em câmera lenta.
Traga seu sopro refrescante
seu cheiro morno de maresia
seu beijo quente de nostalgia
e me faça esquecer de morrer.
posso flutuar com você?
Lançamento da Pisc!
Dia 03 de dezembro às 20 horas
no Bar Salommão [Rua Angélica, 2435]
www.salommao.com.br
Para os que não sabem, Pisc, é a nossa mais nova revista. Por “nós” me refiro a: dann thomas, elisa buzzo, guiortenblad, jozz, julio castro e sissy eiko. Mais uma nova revista independente em meio às outras que produzimos anteriormente: Sonhos e Cochilo. Como explicitado no nome, as revistas abordam temas e buscas semelhantes, porém em escalas diferentes. Uma experimentação de representações e linguagens: combinando arte, fotografia, poesia e história em quadrinhos.
A Pisc é nossa revista-pílula!
palavras feias num poema
se ontem escrevi por amor,
hoje escrevo para expurgá-lo.
de todas as coisas eternas dos homens
a poesia é a única que fica.
clareano
despretensioso
– como o que abre mão de uma beleza sabida –
o dia claro
clareano
calmamente se aprochega
(qual mineiro à tardezinha
buscando enveredar prosa boa).
Ao deparar com tal beleza
no alvorecer de outro ciclo vital,
humanamente vocifero,
pretensioso, desigual:
- Apaga a porra da luz, cacete!
fashion
pensando bem…
A melancolia não combina
com esse Q de irresponsabilidade
que te estampa vez ou outra
um sorriso marau.
tente um óculos!
um guarda-chuva
ou um jornal!
o carioca
o meu piá cresceu.
e agora
– além de sambar em meus sonhos
junto aos homens sisudos da estante–
baila entre elas,
vendendo livros cor-de-breu
em terno branco galante
(e chapéu sem-vergonha de malandro).
o furo
onde estará
aquela bola azul e leve
cheia de estrelas
do chão de minha infância?
É, aquela lá…
que furou na lança do portão
e deixou escapar pelo rasgo
meu desejo imberbe em falar a verdade!
não aqui
aqui jaz o desejo e a culpa,
a fuga e a luta,
o não sei e o não estou.
jaz o fogo corrido de mato pé-de-serra,
o fogo de palha,
o lacerado e o queimante.
jaz o peito do amante
o grito do amado
o choro do ausente.
Aqui mora o incerto
enraizado e descoberto.
mora o prazer do não ser,
a ausência do ter
e a fixação em partir.
Aqui mora o não-eu.
Aqui jaz o sem mim.